PERSONAGEM
DA SEMANA
Na semana após mais uma
vitória rotineira em cima de seu arquirrival, nada mais natural que o
personagem da semana fosse um dos jogadores do Gigante da Colina.
Talvez Nenê, o melhor
jogador do futebol brasileiro na atualidade. Ou o zagueiro Rodrigo, um monstro
que não se intimida com guerreiro nenhum. Ou Rafael Vaz, que saiu do banco e
fez o gol da vitória aos 45 do segundo tempo.
Mas, não. O “personagem da
semana” é o imponente, quase centenário e a principal resposta ao preconceito no
futebol brasileiro em todos os tempos.
Em uma tarde fria de
14/04/1895, na Várzea do Campo, em São Paulo, Charles Miller reuniu alguns
amigos ingleses e filhos de europeus e realizou a considerada primeira partida
de futebol no Brasil.
Posteriormente, até a década
de 20, o football era disputado por
uma elite, inclusive no Rio de Janeiro. Até então, os brancos, bem nascidos e
frequentadores de clubes, disputavam o Campeonato Carioca dominado por
Flamengo, Fluminense e Botafogo, todos com sedes na Zona Sul da cidade.
Na vanguarda da história, em
1923 um time de futebol criado por pequenos comerciantes portugueses e
luso-descendentes, composto por jogadores operários, negros, mulatos e
analfabetos, recrutados nos subúrbios, ascende para a primeira divisão do
Campeonato Carioca.
Logo no primeiro ano, o time
comandado pelo uruguaio Ramón Platero conquista o título e a ira dos playboys
da Zona Sul, que não admitiam tal afronta. Imagino que a indignação dos “queridinhos”
foi a mesma que Adolf Hitler sentiu ao vislumbrar Jesse Owens, um neto de
escravos, vencer em pleno solo alemão as provas de atletismo nos 100 m, 200 m e
4x100 m.
Com medo do bicampeonato, os
“brancos” abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e
fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), tendo deixado
o Campeão do ano anterior de fora.
No entanto, por serem
“guardiões da moral”, permitiram que o então campeão disputasse o Campeonato
pela nova Liga. Só que teve uma condição: a dispensa dos doze atletas negras de
“profissões duvidosas”.
Diante da ofensa, o
presidente do Club de Regatas Vasco da Gama, José Augusto Prestes envia para a
AMEA a carta conhecida como “resposta histórica”, que deveria ser estudada nas
escolas, com o seguinte teor:
Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Ofício nr. 261 Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.
Os privilégios
concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será
exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações,
obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto à condição
de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por
unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar,
por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das
posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal
onde não tiveram nem representação nem defesa.
Estamos certos
que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa
parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para
que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do
Rio de Janeiro de 1923.
São esses doze
jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato
público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que
dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta
galhardia, cobriram de glórias.
Nestes termos,
sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.
Queira V.Exa.
aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se
subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado.
(a) Dr. José
Augusto Prestes.
Presidente
(fonte: wikipedia)
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Um dos argumentos para
exclusão do time que treinava e jogava em um campo no Andaraí, que depois se
tornou campo do América – RJ e posteriormente o Shopping Iguatemi, era o fato
do time não possuir um estádio.
Começa ali uma campanha de
união entre os torcedores, que em pouco tempo arrecadaram Cr$ 690.895,00. Com
tal quantia, adquiriram um terreno de 65.445 m² em São Cristóvão e depois de
nova campanha, iniciaram a construção do personagem da semana, inaugurado em
21/04/1927, tendo permanecido como o maior da América Latina durante anos.
Passados 92 (noventa e dois)
anos, dois dos principais personagens da vergonhosa história de 1924 somente
mudam o nome da Liga. Como se não bastasse a tentativa de enfraquecimento ainda
maior dos times pequenos e do Campeonato Carioca, novamente utilizam os
“isentos” veículos de imprensa para defenderem a “moralidade”.
Sem a subserviência do Club
de Regatas Vasco da Gama, tendo em vista a impossibilidade de utilização dos
dois maiores estádios da cidade do Rio de Janeiro, o time da Gávea estava
ciente que a partida do dia 14/02/2016 seria realizada no estádio que foi palco
da leitura da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), teve final de
Libertadores, Copa do Brasil, milésimo gol do Romário, incluso em 2002 por um
canal especializado como um dos melhores do mundo para se assistir uma partida
de futebol e tantas outras glórias que não caberiam no texto.
Ainda assim, ao se aproximar
a data supramencionada, sob pretexto de preocupação com a segurança, o
presidente do time que tem um urubu como mascote, tomado pela inveja de quem
não tem um estádio, tenta mais uma vez desonrar o Club de Regatas Vasco da
Gama.
Desmentido pelo comandante
do GEPE e até pelo próprio treinador de sua equipe, o jogo acontece com a
normalidade presente em qualquer clássico entre as duas equipes e o resultado
também não apresenta surpresas.
Somente resta aos torcedores
do time rubro-negro, comentarem sobre supostos pênaltis em partidas anteriores,
sem analisar se ocorreram ou não. Contudo, se o pênalti favorável ao time da
Gávea ocorreu ou não e se o Macaé teve uma penalidade clara não marcada, não
importa.
Após mais uma aula de
futebol, o “chororô” e a inveja contra quem sabe o local em que vai mandar seus
jogos desde 1927 não tem fim. No final, graças ao presidente do Clube de
Regatas Flamengo, o estádio de São Januário provou mais uma vez que pode
receber jogo decisivo contra Corinthians ou clássico contra qualquer rival.
Obrigado, Flamengo! E
tremei, pois se já estava difícil ganhar do Gigante no Maracanã, imagina na
Colina Histórica...
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