quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Hitler Nunca Vencerá Jesse Owens

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PERSONAGEM DA SEMANA

     Na semana após mais uma vitória rotineira em cima de seu arquirrival, nada mais natural que o personagem da semana fosse um dos jogadores do Gigante da Colina.

     Talvez Nenê, o melhor jogador do futebol brasileiro na atualidade. Ou o zagueiro Rodrigo, um monstro que não se intimida com guerreiro nenhum. Ou Rafael Vaz, que saiu do banco e fez o gol da vitória aos 45 do segundo tempo.
Mas, não. O “personagem da semana” é o imponente, quase centenário e a principal resposta ao preconceito no futebol brasileiro em todos os tempos.

     Em uma tarde fria de 14/04/1895, na Várzea do Campo, em São Paulo, Charles Miller reuniu alguns amigos ingleses e filhos de europeus e realizou a considerada primeira partida de futebol no Brasil.

      Posteriormente, até a década de 20, o football era disputado por uma elite, inclusive no Rio de Janeiro. Até então, os brancos, bem nascidos e frequentadores de clubes, disputavam o Campeonato Carioca dominado por Flamengo, Fluminense e Botafogo, todos com sedes na Zona Sul da cidade.
Na vanguarda da história, em 1923 um time de futebol criado por pequenos comerciantes portugueses e luso-descendentes, composto por jogadores operários, negros, mulatos e analfabetos, recrutados nos subúrbios, ascende para a primeira divisão do Campeonato Carioca.

     Logo no primeiro ano, o time comandado pelo uruguaio Ramón Platero conquista o título e a ira dos playboys da Zona Sul, que não admitiam tal afronta. Imagino que a indignação dos “queridinhos” foi a mesma que Adolf Hitler sentiu ao vislumbrar Jesse Owens, um neto de escravos, vencer em pleno solo alemão as provas de atletismo nos 100 m, 200 m e 4x100 m.

   Com medo do bicampeonato, os “brancos” abandonaram a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), tendo deixado o Campeão do ano anterior de fora.

     No entanto, por serem “guardiões da moral”, permitiram que o então campeão disputasse o Campeonato pela nova Liga. Só que teve uma condição: a dispensa dos doze atletas negras de “profissões duvidosas”.
Diante da ofensa, o presidente do Club de Regatas Vasco da Gama, José Augusto Prestes envia para a AMEA a carta conhecida como “resposta histórica”, que deveria ser estudada nas escolas, com o seguinte teor:

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Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Ofício nr. 261
 
Exmo. Sr. Dr. Arnaldo Guinle
M.D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Atléticos

As resoluções divulgadas hoje pela imprensa, tomadas em reunião de ontem pelos altos poderes da Associação a que V.Exa tão dignamente preside, colocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada nem pela deficiência do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa sede, nem pela condição modesta de grande número dos nossos associados.
Os privilégios concedidos aos cinco clubes fundadores da AMEA e a forma por que será exercido o direito de discussão e voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923.
São esses doze jogadores jovens, quase todos brasileiros, no começo de sua carreira e o ato público que os pode macular nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que eles, com tanta galhardia, cobriram de glórias.
Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V.Exa. que desistimos de fazer parte da AMEA.
Queira V.Exa. aceitar os protestos de consideração e estima de quem tem a honra de se subscrever, de V.Exa. At. Vnr. Obrigado.
(a) Dr. José Augusto Prestes.
Presidente (fonte: wikipedia)

     Um dos argumentos para exclusão do time que treinava e jogava em um campo no Andaraí, que depois se tornou campo do América – RJ e posteriormente o Shopping Iguatemi, era o fato do time não possuir um estádio.

     Começa ali uma campanha de união entre os torcedores, que em pouco tempo arrecadaram Cr$ 690.895,00. Com tal quantia, adquiriram um terreno de 65.445 m² em São Cristóvão e depois de nova campanha, iniciaram a construção do personagem da semana, inaugurado em 21/04/1927, tendo permanecido como o maior da América Latina durante anos.

     Passados 92 (noventa e dois) anos, dois dos principais personagens da vergonhosa história de 1924 somente mudam o nome da Liga. Como se não bastasse a tentativa de enfraquecimento ainda maior dos times pequenos e do Campeonato Carioca, novamente utilizam os “isentos” veículos de imprensa para defenderem a “moralidade”.

     Sem a subserviência do Club de Regatas Vasco da Gama, tendo em vista a impossibilidade de utilização dos dois maiores estádios da cidade do Rio de Janeiro, o time da Gávea estava ciente que a partida do dia 14/02/2016 seria realizada no estádio que foi palco da leitura da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), teve final de Libertadores, Copa do Brasil, milésimo gol do Romário, incluso em 2002 por um canal especializado como um dos melhores do mundo para se assistir uma partida de futebol e tantas outras glórias que não caberiam no texto.

     Ainda assim, ao se aproximar a data supramencionada, sob pretexto de preocupação com a segurança, o presidente do time que tem um urubu como mascote, tomado pela inveja de quem não tem um estádio, tenta mais uma vez desonrar o Club de Regatas Vasco da Gama.
     
     Desmentido pelo comandante do GEPE e até pelo próprio treinador de sua equipe, o jogo acontece com a normalidade presente em qualquer clássico entre as duas equipes e o resultado também não apresenta surpresas.
Somente resta aos torcedores do time rubro-negro, comentarem sobre supostos pênaltis em partidas anteriores, sem analisar se ocorreram ou não. Contudo, se o pênalti favorável ao time da Gávea ocorreu ou não e se o Macaé teve uma penalidade clara não marcada, não importa.

     Após mais uma aula de futebol, o “chororô” e a inveja contra quem sabe o local em que vai mandar seus jogos desde 1927 não tem fim. No final, graças ao presidente do Clube de Regatas Flamengo, o estádio de São Januário provou mais uma vez que pode receber jogo decisivo contra Corinthians ou clássico contra qualquer rival.


     Obrigado, Flamengo! E tremei, pois se já estava difícil ganhar do Gigante no Maracanã, imagina na Colina Histórica... 

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