terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Mi-Mi-Milho!

   Há alguns meses, uma enxurrada de posts nas redes sociais crucificavam as cervejas mais tradicionais do Brasil pelo fato de as mesmas utilizarem milho em sua fabricação. Muitos se sentiam enganados , outros exaltavam aquelas que não usam milho em sua produção. Enfim,  tema viralizado pela net e o pobre milho ficou como vilão da história , tido como tudo de mais errado que pode existir na composição de uma cerveja. Afinal , qual seria a verdade sobre essa questão? A coluna foi atrás dos fatos e convida você a tirar as próprias conclusões.

    Atualmente  a composição cevada(malte) , lúpulo, levedura e água é tida como a fórmula mágica que resulta em cerveja . Tal composição (e suas variações) no entanto, advém da lei bávara de 1516 e nada tem a ver com a preocupação com a qualidade da cerveja e sim com a taxação que alguns produtos sofriam , além de disputas políticas locais. Óbvio que isto até hoje é explorado pelas grandes cervejarias alemãs como sendo prova de pureza e qualidade  do produto. Talvez baseado nisso tenha surgido a confusão toda, afinal, a grande maioria desconhece o processo de fabricação da cerveja e alguns fatos históricos que compões esse contexto.

     Verdade é que vestígios do que seriam as primeiras bebidas fermentadas pelo homem datam de 7000 a.C. e continham arroz, mel e frutas(China). Nas Américas, os Andinos produziam uma bebida fermentada a base de milho, a chincha, séculos antes da chegada dos europeus por estas terras. Trazendo para os dias atuais, percebemos que reconhecidas cervejarias belgas utilizam o milho em suas cervejas, embora a proporção seja inferior à usadas por aqui. Parte da utilização deste grão , claro, se deve a necessidade de baratear a produção , porém , o milho também contribui no processo de fermentação (que gera o álcool da bebida) além de melhorar a consistência , a aparência e a palatabilidade do produto final.

     No Brasil, a lei atual permite o uso de até 45% de milho (ou de outros cereais) na produção das cervejas – chamados de cereais não-maltados. Talvez a partir disso tivemos tamanha expansão do consumo da bebida em nosso país nas últimas décadas, visto que  a utilização do milho acaba por tornar o produto mais barato , um paladar mais neutro (o que agrada a um público maior) o que consequentemente amplia o mercado consumidor. Trocando em miúdos, temos uma cerveja com baixo índice de rejeição, que entrega o que promete: frescor associado a uma composição alcoólica .

     Em contrapartida, a falta de personalidade dessas grandes marcas acabou por abrir espaço para as cervejarias  artesanais que entregam produtos para bebedores com preferências bem definidas, que se importam mais profundamente com a cerveja e querem grandes explosões de aromas e sabores.  Interessante é que aqui  os “milhofóbicos” já aceitam matérias-primas muito diferentes da tradicional fórmula mágica alemã , como o arroz, o trigo , sorgo, milhete, frutas, pimenta, ervas entre outros .

     O milho, definitivamente, não é um vilão. Ele participou desde a fase embrionária da cerveja e atualmente passou a ser um importante conteúdo propulsor da bebida. Independente das questões de mercado, ele , assim como outros grãos, se combinam e dão origem as mais diversas formas de cerveja, expandindo cada vez mais esta arte de apreciação.  


E você , já tem a sua preferida? 

3 comentários:

  1. Muito bom o texto. Não sou dos milho fóbicos, mas gosto de saborear uma cerveja especial e lógico que nossas tradicionais caem muito bem nos churrascos e num dia quente e de praia.

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  2. Bom texto e bom tema Saraka! Esclarecedor, didatico e direto. Ta cheio de "milhofóbico" por ai, a unica coisa que "entendem" de cerveja eh "a marca tal nao tem milho, por isso eh melhor!". Segundo o texto, ate as "especiais" podem ter milho (e quase sempre tem).

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  3. Perdão estou aguardando vc fazer uma degustação às cegas.

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