Há alguns meses, uma enxurrada de posts nas redes sociais
crucificavam as cervejas mais tradicionais do Brasil pelo fato de as mesmas
utilizarem milho em sua fabricação. Muitos se sentiam enganados , outros
exaltavam aquelas que não usam milho em sua produção. Enfim, tema viralizado pela net e o pobre milho ficou
como vilão da história , tido como tudo de mais errado que pode existir na
composição de uma cerveja. Afinal , qual seria a verdade sobre essa questão? A
coluna foi atrás dos fatos e convida você a tirar as próprias conclusões.
Atualmente a composição cevada(malte) , lúpulo, levedura
e água é tida como a fórmula mágica que resulta em cerveja . Tal composição (e
suas variações) no entanto, advém da lei bávara de 1516 e nada tem a ver com a
preocupação com a qualidade da cerveja e sim com a taxação que alguns produtos
sofriam , além de disputas políticas locais. Óbvio que isto até hoje é
explorado pelas grandes cervejarias alemãs como sendo prova de pureza e
qualidade do produto. Talvez baseado
nisso tenha surgido a confusão toda, afinal, a grande maioria desconhece o
processo de fabricação da cerveja e alguns fatos históricos que compões esse
contexto.
Verdade é que
vestígios do que seriam as primeiras bebidas fermentadas pelo homem datam de 7000
a.C. e continham arroz, mel e frutas(China). Nas Américas, os Andinos produziam
uma bebida fermentada a base de milho, a chincha, séculos antes da chegada dos
europeus por estas terras. Trazendo para os dias atuais, percebemos que
reconhecidas cervejarias belgas utilizam o milho em suas cervejas, embora a
proporção seja inferior à usadas por aqui. Parte da utilização deste grão ,
claro, se deve a necessidade de baratear a produção , porém , o milho também
contribui no processo de fermentação (que gera o álcool da bebida) além de
melhorar a consistência , a aparência e a palatabilidade do produto final.
No Brasil, a lei
atual permite o uso de até 45% de milho (ou de outros cereais) na produção das
cervejas – chamados de cereais não-maltados. Talvez a partir disso tivemos
tamanha expansão do consumo da bebida em nosso país nas últimas décadas, visto
que a utilização do milho acaba por
tornar o produto mais barato , um paladar mais neutro (o que agrada a um público
maior) o que consequentemente amplia o mercado consumidor. Trocando em miúdos,
temos uma cerveja com baixo índice de rejeição, que entrega o que promete: frescor
associado a uma composição alcoólica .
Em contrapartida, a
falta de personalidade dessas grandes marcas acabou por abrir espaço para as
cervejarias artesanais que entregam produtos
para bebedores com preferências bem definidas, que se importam mais
profundamente com a cerveja e querem grandes explosões de aromas e sabores. Interessante é que aqui os “milhofóbicos” já aceitam matérias-primas
muito diferentes da tradicional fórmula mágica alemã , como o arroz, o trigo ,
sorgo, milhete, frutas, pimenta, ervas entre outros .
O milho,
definitivamente, não é um vilão. Ele participou desde a fase embrionária da
cerveja e atualmente passou a ser um importante conteúdo propulsor da bebida.
Independente das questões de mercado, ele , assim como outros grãos, se
combinam e dão origem as mais diversas formas de cerveja, expandindo cada vez
mais esta arte de apreciação.
E você , já tem a sua preferida?

Muito bom o texto. Não sou dos milho fóbicos, mas gosto de saborear uma cerveja especial e lógico que nossas tradicionais caem muito bem nos churrascos e num dia quente e de praia.
ResponderExcluirBom texto e bom tema Saraka! Esclarecedor, didatico e direto. Ta cheio de "milhofóbico" por ai, a unica coisa que "entendem" de cerveja eh "a marca tal nao tem milho, por isso eh melhor!". Segundo o texto, ate as "especiais" podem ter milho (e quase sempre tem).
ResponderExcluirPerdão estou aguardando vc fazer uma degustação às cegas.
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