Será mesmo racismo?
Recentemente o técnico do Flamengo, Cristóvão Borges, fez um desabafo público dizendo que está sendo vítima de racismo (por ser negro), uma vez que as críticas dirigidas a ele estão sendo muito duras, reiteradas e sem motivação. Entre outros fundamentos cita como exemplo um apelido criado para o mesmo, "Mourinho do Pelourinho", o qual teria, ao seu sentir, conotação racial.
Considero que esse debate é sério. É verdade que a história do futebol e do Brasil é repleta de episódios racistas. Vale lembrar que por algum tempo os negros não eram admitidos nos clubes de futebol. A folclórica história (ou não) que o Fluminense enchia seus jogadores negros de pó de arroz (um dos apelidos da torcida - admitindo-se outras versões também para a alcunha -) para aparentarem ser brancos pode ser um bom exemplo. Registra-se, da mesma forma, que são poucos os técnicos negros nos principais clubes brasileiros.
De outro lado, o maior jogador e ídolo da história do futebol, Pelé, é brasileiro e negro. Sendo certo que hoje os clubes de futebol do Brasil possuem muitos jogadores negros, os quais são, inclusive, ídolos em suas equipes. Soma-se a isso o fato de que o Flamengo tem retrospecto positivo com técnicos negros no passado recente, entre eles destacaram-se Carlinhos (Campeão Brasileiro, Campeão da Mercosul e Tricampeão Carioca), Andrade (Campeão Brasileiro) e Jayme de Oliveira (Campeão da Copa do Brasil e Carioca). Todos são queridos pela torcida rubro-negra e foram elogiados pela imprensa em virtude do trabalho realizado. De todo modo, não obtiveram sucesso em outros clubes.
Feito esse contexto, pelo menos no Flamengo, essa hipótese de racismo não seria coerente com o passado remoto. Da mesma forma, a imprensa tem sido muito elogiosa ao trabalho que o técnico Roger Carvalho (que também é negro) tem feito no Grêmio, assim como foram em relação aos técnicos rubro-negros citados. Até mesmo o Cristóvão recebeu diversas menções positivas quando foi técnico do Vasco, e por um período, no Fluminense.
Cristovão assumiu o Flamengo em uma situação negativa, mas em um momento que muitas contratações foram anunciadas, o que fez a torcida imaginar que o time poderia conseguir sucesso maior. A disputa eleitoral do clube tem provocado um racha em diversas correntes políticas, que estão pressionando cada vez mais as escolhas do presidente (o qual tem defendido Cristóvão). Além do que é um treinador que não possui nenhum título em seu currículo, bem como tem a carreira identificada a rivais cariocas. Todos esses fatores, atrelados às escolhas de jogadores que já estavam na berlinda com a torcida e escalações (e substituições) questionáveis resultaram em uma grande rejeição da torcida e críticas da imprensa.
Um técnico vencedor exige uma comunhão de diversas virtudes, entre elas: conhecimento tático, identificar potenciais positivos e negativos dos jogadores, saber lidar com o "vestiário do clube", ter inteligência emocional para lidar com as adversidades, bom trânsito nos bastidores políticos da agremiação, saber se expressar com clareza, ter bom relacionamento com a imprensa, criar uma empatia com o torcedor, entre outras. Trabalhar sob pressão impõe ainda maior controle de todas essas virtudes. Mas há um fator que a torcida rubro-negro não perdoa: a falta de vibração e guarra do time. Talvez, a fala mansa e conversa tranquila passem uma percepção de que falte atitude e pulso ao treinador.
Considerando toda essa realidade, ao meu ver, a afirmação do técnico é exagerada, acompanhando um sentimento da sociedade moderna de "excesso de suscetibilidade" em relação às críticas. Todavia, pode haver mais fatos que não foram revelados. Ao que aparenta, só as vitórias mudarão esse quadro. E você, leitor, o que acha?

Boa Allan... ótimo texto!!!
ResponderExcluirTemos uma dívida histórica com os negros no Brasil... mas não vejo racismo no fato de existirem poucos técnicos negros comandando os times. Afinal, assim como a dívida com os negros é histórica, a rede de relacionamento também é. Por esse fato, acho normal um predominância branca.
Dito isso, acho o Cristóvão um técnico mediano, e gostei do time nas duas últimas partidas.
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ResponderExcluirAmigo Allan, obrigado pelas suas ponderações. Sempre muito claras e convenientes. Como vc bem disse, é um assunto sério e delicado. É fato a existência do preconceito e do racismo no nosso país, ainda que na maioria das vezes, de forma disfarçada e até "desproposital", como se fosse algo visceral, incontrolável. Ainda assim , penso que neste quesito sejamos até mais evoluídos que muitos países de primeiro mundo, embora reconheço que isso nao chega a ser uma virtude. O futebol, mesmo com sua história iniciada com intenso componente segregativo, se tornou o esporte mais popular do mundo e o que possui o maior número de profissionais atuantes. Mesmo assim, diversos casos de preconceito e racismo continuam a acontecer a cada rodada dos campeonatos pelo mundo. Enfim, é dificil saber o que ocorre com Cristóvão e mais dificil ainda é entender como essas coisas ainda existem .Grande abraço
ResponderExcluirMuito bom texto e de alta relevância, pois como cita amigo Saraca, o preconceito no Brasil é "disfarçado", lembram da Música "boi boi boi, boi da cara PRETA, pega essa criança que tem medo de careta", como se a 'Cara PRETA" fosse sempre mais feia...e mais, como dissemos quando a situação tá ruim " Coisa tá PRETA", são atos despropositais, mais com incitação preconceituosa.
ResponderExcluirGrande abraço amigos intelectos, loucos e cachaceiros!
Excelente publicação! Parabéns. Quanto à pergunta final, penso como você. Se não houver mais fatos a serem revelados, que possam demonstrar realmente a existência de racismo em relação ao Cristóvão, a afirmação deste poderia ser considerada como uma tentativa de se fazer de vítima e, assim, desviar o foco do seu trabalho, até o momento, bastante questionado.
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